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O Caracol Mole e o Cardo Picão


O Caracol era diferente do resto da família, foi sempre muito pequeno para a sua idade, esguio, de concha frágil e muito muito lento. Além de tudo isso, era tímido e tinha poucos amigos.

Num dia de chuva forte, perdeu-se no caminho de regresso à sua cidade e deu por si no lugar mais perigoso para um caracol, a estrada de bicicletas. 

“Isto não é lugar para um Caracol!” pensou.

Depois disto, tudo aconteceu muito rápido, uma mão apareceu sobre si cada vez mais perto e mais perto e agarrou-o! O caracol naquele momento congelou de medo e quando menos esperava, a mesma mão pousou-o delicadamente à beira da estrada numa zona que já tinha algumas plantas.

– Não podes andar assim pelo meio das bicicletas – exclamou a voz por trás da mão – Podias ter sido atropelado!

Era o seu dia de sorte. Nunca tinha tido contacto tão próximo com um humano e, na verdade, eles não tinham a melhor fama junto da comunidade dos caracóis. 

“Talvez nem todos os humanos representem perigo para nós” pensou o caracol “afinal os caracóis não são todos iguais, provavelmente o mesmo se passa com os humanos.”

A chuva já tinha começado a abrandar e o sol já espreitava de novo por entre as nuvens, o Caracol passeava pelos campos a tentar recuperar o caminho para casa. 

“As formigas conhecem de certeza um atalho” pensou, mas cada vez que estava quase a chegar perto de uma, ela já seguia caminho “tão atarefadas andam estas formigas e são tão rápidas!”

Nesta altura o sol brilhava, a chuva tinha cessado por completo e o caracol já reconhecia o lugar onde se encontrava, tinha-se afastado muito e teria de procurar abrigo para pernoitar ali perto.

“Agora sim, estou oficialmente no meio do nada” pensou “o único lugar aqui perto é a cidade dos cardos, de onde os caracóis foram banidos há anos atrás.”

A noite começava a aproximar-se e o caracol contornava a cidade dos cardos para evitar ao máximo qualquer interação com um deles, quando ouviu:

– psst, psst…Estás perdido? Pareces perdido! Estás sozinho? – era um cardo que vivia à margem dos restantes e dali conseguia perfeitamente observar o caracol que o ignorava completamente. 

O Caracol tentou apressar o passo, mas era tão lento que deu tempo suficiente ao cardo de continuar a tentar falar com ele. A certa altura o Caracol viu-se obrigado a responder: 

– Peço desculpa por estar tão próximo dos limites da vossa cidade, eu não quero incomodar! Tive um contratempo no meu trajeto de volta à cidade dos caracóis e estou à procura de lugar para passar esta noite. Amanhã cedo estarei de partida, garanto-lhe!” 

O Cardo respondeu-lhe: 

– Esta noite vai chover muito, devias dormir abrigado, a tua concha não me parece muito resistente… Sobe, podes ficar a descansar entre as minhas folhas. – O Caracol não conseguiu disfarçar o seu ar de espanto perante este convite, tinha crescido a pensar que deveria evitar aquela cidade de cardos a todo o custo, porque todos os caracóis estavam proibidos de lá entrar.

– Obrigada, mas não posso aceitar. Na verdade, julgo que nem deveria estar aqui a falar contigo.

O Cardo olhou o Caracol e disse: 

– Confia em mim. Esta noite as chuvas serão muito agressivas, receio que te aconteça algo se não te protegeres a tempo! Além disso, das minhas folhas mais altas consegues ver as estrelas. – O Caracol admitiu que não lhe restavam grandes alternativas e abrigou-se entre as folhas do Cardo. 

Quando já estava instalado perguntou-lhe:

– Se os caracóis têm tão má reputação por aqui, porque é que insististe tanto para que eu subisse?

O Cardo respondeu:

– Os Cardos e os caracóis costumavam viver em harmonia sabias? – O Caracol escutava confuso, enquanto o Cardo continuava:

– Já ninguém fala dos tempos antigos, mas a minha avó ainda me contou muitas histórias. Ela nunca concordou em banir por completo os caracóis… é certo que na altura foi necessário impor regras, sei que alguns caracóis se portaram mal e comeram as folhas verdes dos cardos… Mas antes dos conflitos os cardos e os caracóis viviam em harmonia, somos muito diferentes e é precisamente por isso que nos podemos entre ajudar.

Nós os cardos, com os nossos picos, abrigávamos e protegíamos famílias inteiras de caracóis, criaturas frágeis e molinhas como tu contra intempéries e predadores. Em troca, vocês mostravam-nos o mundo através de histórias das vossas infinitas viagens. – O Caracol ouve o Cardo atentamente, nunca lhe tinham falado sobre os tempos antigos. O cardo acrescenta:

– Sempre quis saber como é o mundo. Nós os cardos vivemos sempre no mesmo lugar, enquanto tu tens a casa às costas, imagino que passes muito tempo a viajar. Já deves ter visto tanto! Contas-me como é o mundo?

O Caracol aconchegou-se numa das folhas altas do Cardo enquanto lhe falava sobre as suas viagens. 




 
 
 

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